António Xavier Correia Barreto
Ministro da guerra
(1853-1939)
A rua Coronel Barreto recebeu este nome após a implantação da República, em 1910, em homenagem ao ministro da Guerra do primeiro governo provisório daquele regime, falecido acidentalmente devido a um tiro perdido, durante uma visita a um quartel.
Tradicionalmente a designação desta artéria era de Rua da Praça.
Foi numa taberna desta rua – no local onde atualmente se encontra o restaurante Pintarola – que nasceu, a 9 de Março de 1920, Almerinda Rosa Correia, que se destacou em meados do século XX no atletismo nacional, tendo sido fundadora do Atlético Clube de Almada.
Casou com o escritor Romeu Correia, e o período inicial da sua vida – nomeadamente a sua juventude e adolescência, passadas em Sesimbra – aparece literariamente retratado num dos mais notáveis livros daquele escritor neorrealista: Trapo Azul.
Trapo Azul
Uma boa parte do romance Trapo Azul, de Romeu Correia, passa-se em Sesimbra, e descreve diversos aspetos da vila através dos olhos da jovem Laurinda, certamente recriados pelo autor com a ajuda da memória da sua mulher, Almerinda: o naufrágio de pescadores na praia e a devoção ao Senhor das Chagas, a procissão do Senhor das Chagas, tanto a verdadeira, como uma reconstituição de brincadeira feita pelas miúdas da vila.
«As hortas ficavam a um girinho da vila. Depois dos becos e travessas, passávamos pela estrumeira da Câmara – e logo os nossos pés a calcorrear o chão ondeante, bravio. Dávamos as mãos umas às outras, em comprido cordão: uma fila de sete, oito, dez. Primavera desejada! Num campo cheio de sol, livres de pais, mães e tias, chilreávamos de felicidade.
Tapetes de malmequeres brancos e amarelos, cachimbos e cãezinhos; aqui e ali, abelhudos, espreitavam goivos. Nossos olhos encharcados de cor! Narizes a sorver perfumes! E colhíamos ramilhetes, sortíamos efeitos, caprichávamos matizes, sôfregas de prazer e encanto.
Com as diversas flores colhidas preparavam o enfeites: cordéis à volta da cintura, da cabeça e dos punhos. No tronco colocavam malmequeres amarelos; os mais raros malmequeres brancos iam para a grinalda; mas todas queriam levar a rede: um pedacito de rede na cabeça representava o “manto de Nossa Senhora”, o manto do céu; tinham que tirar à sorte com pedrinhas (“pedrinha, pedrinha, quem quer ser a madrinha?”). Cortejo encabeçado por uma cruz de cana (“A treze de Maio / apareceu Maria…”) percorriam as ruas vazias, “olhos em frente, passo lento, solene.»
Vários outros episódios e apontamentos, vistos pelos olhos da jovem Laurinda, desfilam gostosamente nas palavras de Romeu Correia: um cão atropelado; duas vizinhas a “baterem-se de língua”; um pescador a fazer cabriolas; os “robertos” e os seus personagens (Zé Broa, Padreca, Miquelina e o Polícia); ou ainda os recados que os miúdos tinha que fazer:
«Pega. Trás dois tostões de cloreto…
– Mãe, tostão pra pinhões…
– Deixa-me negra! Não me tentes!»
Pontos de Interesse:
Festas em honra do Sr. Jesus das Chagas, 4 de Maio;
