“Moço” é a categoria com que se inicia a profissão de pescador, de acordo com uma antiga tradição que ainda hoje se encontra presente na cultura piscatória de Sesimbra. Assim, as tradicionais designações dos percursos de aprendizagem: “aprendiz” – “oficial” – “mestre”, encontram correspondência, em Sesimbra, nos termos: “moço” – “companheiro” ou “camarada” – “arrais” ou “mestre”. No seu conjunto, os moços, companheiros e arrais de uma embarcação, constituem uma “companha”.
Como moços – uma responsabilidade que, em tempos não muito distantes, podia começar aos seis anos de idade – trabalhava-se inicialmente em terra, na “loja de companha”, e depois no mar; distinguiam-se, assim, os “moços de terra” dos “moços de mar”.
Aos moços eram atribuídas as tarefas mais simples, mas nem por isso menos penosas. António Reis Marques descreve desta forma esse período de aprendizagem:
«A loja da companha e a praia eram os lugares de aprendizagem. No primeiro decorria a fase mais prática da sua formação. Havia que aprender a preparação da “caçada”, que compreendia as operações de “desemachuchar” o grande emaranhado de linhas vindas da pesca, substituir os anzóis, arames e estrovos que já não estivessem em condições, empatar os anzóis e “ensarrumar” ou arrumar as linhas com anzóis prontas para serem iscadas. Na praia começavam por receber noções de orientação e meteorologia bem como a conhecer o fluxo e refluxo das águas do mar, ao mesmo tempo que iam sabendo o nome das várias espécies da fauna e da flora marinhas, e ainda a usar os remos e as velas na manobra das pequenas embarcações, como a “chata” e a aiola. Cabia-lhes ainda uma outra tarefa, de todas a mais árdua, constituindo como que um rito de passagem, que era a de “moço chamador”. E com isso, ainda infantes, já conheciam a dureza da vida, levantando-se de madrugada para, calcorreando as ruas da vila, chamar os pescadores para as fainas da pesca.»
Esta função do “moço chamador” foi retratada na letra de uma canção popular, o Vira de Sesimbra, que foi cantado por Amália Rodrigues:
Levante-se oh Tio António
Ai não se deixe ficar
Que a companha está à espera
Para ir para o alto mar!
Na Balada do Moço Chamador, o poeta sesimbrense Zé Preto retratou-os desta forma:
P´la noite de breu
Medonha e sem estrelas
Há gritos de medos
Clamores de procelas,
No vento, a correr,
Fantasmas errantes
Semeiam p´lo escuro
Ais apavorantes.
E por entre os medos
O moço do mar
É outro fantasma
No escuro, a gritar.
É outro fantasma
Negro, esfarrapado,
Chamando a companha
A cumprir seu fado…
(..:)
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Fotografia Moços (Arquivo CMS)
Moços da Pesca (António Reis Marques in Sesimbra acontece. Sesimbra: CMS, 2009. N.º 42, p. 26-27)
Fonte:
Marques, António Reis. Moços da Pesca. In Sesimbr’Acontece. Sesimbra: CMS, 2009. N.º 42, p. 26-27.
Rodrigues, Amália. Vira de Sesimbra. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=l66Ony0smZo. Acesso em: 27/03/2015.
Preto, Zé. Obras Reunidas. Sesimbra: CMS, 2001.
